Os pilares da Reforma Protestante 1
Infelizmente no mundo pós-moderno, onde o relativismo cresce em proporções alarmantes, em detrimento de um claro “assim diz o Senhor”, faz-se necessário reavivar em nossa memória os princípios que abalaram e transformaram o mundo, especialmente agora, quando tantas forças tentam subvertê-los e neutralizá-los. Os cinco pilares sobre os quais foi construído e se mantém o edifício da Reforma Protestante são também conhecidos como “Os Cinco Solas”: Sola Scriptura (Somente a Escritura); Sola Fide (Somente por meio da fé); Solus Christus (Somente por meio de Cristo); Sola Gratia (Somente por meio da Graça); e Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus). Iremos a cada semana refletir sobre esses cinco pilares.
Sola Scriptura (somente a Escritura)
“Ao usar essas palavras, os reformadores indicavam sua preocupação com a autoridade da Bíblia, e expressavam que a Bíblia é a única autoridade suprema — não o papa, nem a igreja, nem tradições ou concílios de igreja, menos ainda intuições pessoais ou sentimentos subjetivos — mas tão-somente a Escritura. Essas outras fontes de autoridade são por vezes úteis e talvez tenham seu lugar em certos casos, mas somente a Escritura é definitiva.
Portanto, se qualquer uma dessas outras autoridades diferir dela, deve ser julgada pela Bíblia e rejeitada, e não o contrário. Sola Scriptura já foi chamada o princípio formal da Reforma, no sentido de que se posiciona no início de tudo, e assim direciona e forma tudo que os cristãos afirmam como cristãos.” Os grandes estudiosos da Bíblia concordam que “as duas testemunhas que profetizaram por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de saco” (Apocalipse 11:3) são as Escrituras Sagradas, numa referência ao Antigo e Novo Testamentos, que durante 1260 anos (538-1798), isto é, durante o período medieval, estiveram acorrentadas ou sufocadas pelas tradições, sofismas e decisões dos concílios eclesiásticos.
Nesse tempo, a autoridade da igreja, do papa e seus representantes estava acima da autoridade das Escrituras. Alegavam que somente os padres, bispos e autoridades da igreja estavam em condições de interpretá-las, e que os leigos e ignorantes deviam se submeter às suas interpretações. O resultado desse sequestro e aprisionamento das Escrituras por tanto tempo foi o desenvolvimento e fortalecimento de teorias e tradições humanas, e de uma teologia que incentivava o medo de Deus e das autoridades eclesiásticas que haviam usurpado os atributos divinos. Assim, o povo, mantido nas trevas da ignorância, superstição, e privados do verdadeiro conhecimento de Deus, foi mantido sob o despótico domínio da igreja de Roma e dos governos civis que foram por ela também subjugados.
Lutero recebeu o grau de doutor em Teologia na Universidade de Wittenberg em 19 de outubro de 1512. “Estava agora na liberdade de se dedicar, como nunca dantes, às Escrituras que ele amava. Fizera solene voto de estudar cuidadosamente a Palavra de Deus, e todos os dias de sua vida pregá-la com fidelidade, e não os dizeres e doutrinas dos papas. Não mais era o simples monge ou professor, mas o autorizado arauto da Bíblia. Fora chamado para pastor a fim de alimentar o rebanho de Deus, que tinha fome e sede da verdade. Declarava firmemente que os cristãos não deveriam receber outras doutrinas senão as que se apoiam na autoridade das Sagradas Escrituras.
Essas palavras feriram o próprio fundamento da supremacia papal. Continham o princípio vital da Reforma. “Lutero via o perigo de exaltar teorias humanas sobre a Palavra de Deus. Corajosamente atacava a incredulidade especulativa dos escolásticos, e opunha-se à filosofia e teologia que durante tanto tempo mantiveram sobre o povo a influência dominante. Denunciou tais estudos não somente como indignos, mas perniciosos, e procurava desviar o espírito de seus ouvintes dos sofismas dos filósofos e teólogos para as verdades eternas apresentadas pelos profetas e apóstolos.”
O importante pilar Sola Scriptura foi construído durante todo o período de desenvolvimento da Reforma Protestante. Mas, podemos afirmar que foi consolidado na dieta de Worms, chefiada pelo imperador Carlos V. Lutero foi convocado entre os dias 16 e 18 de abril de 1521 para desmentir e retratar suas Noventa e Cinco Teses contra as Indulgências e todos os seus livros escritos nesse período, nos quais tratava de suas crenças na salvação pela graça e denunciava os abusos da igreja romana. No dia 17 de abril, o conselheiro Eck pediu a Lutero que respondesse explicitamente à seguinte questão: “‘Exige-se que dê resposta clara e precisa... Você irá se retratar ou não?’”
“O reformador respondeu: ‘Visto que Sua Sereníssima Majestade e Suas Nobres Altezas exigem de mim resposta clara, simples e precisa, eu a apresentarei aos senhores, e é esta: Não posso submeter minha fé quer ao papa, quer aos concílios, porque é claro como o dia que eles têm frequentemente errado e se contradito um ao outro. Portanto, a menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pelo mais claro raciocínio; a menos que eu seja persuadido por meio das passagens que citei; a menos que assim submetam minha consciência pela Palavra de Deus, não posso me retratar e não me retratarei, pois é perigoso a um cristão falar contra a consciência. Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa; Deus queira ajudar-me. Amém’. — D’Aubigné.”
Aqui foi consolidado o princípio Sola Scriptura nas palavras de Lutero: “Não posso submeter minha fé quer ao papa quer aos concílios, porque é claro como o dia, que eles têm frequentemente errado e se contradito um ao outro [...] a menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras [...] a menos que assim submetam minha consciência pela Palavra de Deus [...]”. Nunca deveríamos perder de vista este princípio tão fundamental na preservação da verdade. Nunca deveríamos submeter nossa fé aos dirigentes, às decisões da igreja, incluindo as da Conferência Geral, quando não estiverem em harmonia com um claro “assim diz o Senhor”.
Quando consideramos as tradições, as decisões dos nossos conselhos deliberativos acima da Palavra de Deus, estamos destruindo e lançando por terra um dos pilares de sustentação da igreja de Cristo — Sola Scriptura. Como o Senhor enviou mensagens especiais à igreja remanescente através do Espírito de Profecia — os escritos de Ellen G. White —, podemos ser tentados a perder de vista o princípio da Sola Scriptura quando criamos a fórmula Sola Scriptura + Testemunhos de Ellen G. White, colocando ambos no mesmo patamar. Ao colocarmos seus escritos no mesmo nível de autoridade da Bíblia em questões doutrinárias, de fé e prática, estamos consciente ou inconscientemente violando o princípio “somente pelas Escrituras”, que é a base e fundamento da igreja cristã.
Ellen White teve uma compreensão muito clara do princípio Sola Scriptura da Reforma. Ela entendeu perfeitamente a posição dos seus escritos em relação à Bíblia. Ela nunca defendeu a infalibilidade dos próprios escritos, e nem pretendeu que fossem iguais às Escrituras. Consideremos o que ela escreveu: “Mas Deus terá sobre a Terra um povo que mantenha a Bíblia, e a Bíblia só, como norma de todas as doutrinas e base de todas as reformas. As opiniões de homens ilustrados, as deduções da ciência, os credos ou decisões dos concílios eclesiásticos, tão numerosos e discordantes como são as igrejas que representam, a voz da maioria — nenhuma destas coisas, nem todas em conjunto, deveriam considerar-se como prova em favor ou contra qualquer ponto de fé religiosa. Antes de aceitar qualquer doutrina ou preceito, devemos pedir em seu apoio um claro ‘Assim diz o Senhor’.”
“Em Sua Palavra, Deus conferiu aos homens o conhecimento necessário à salvação. As Santas Escrituras devem ser aceitas como a autorizada e infalível revelação de Sua vontade. Elas são a norma do caráter, o revelador das doutrinas, a pedra de toque da experiência religiosa. ‘Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra’ (2 Timóteo 3:16 e 17).”
“Recomendo-lhe, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de sua fé e prática. Por essa Palavra seremos julgados. Nela Deus prometeu dar visões nos ‘últimos dias’; não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir os que se desviam da verdade bíblica. Assim tratou Deus com Pedro, quando estava para enviá-lo a pregar aos gentios.” “O Senhor quer que você estude a Bíblia. Ele não deu alguma luz adicional para tomar o lugar de Sua Palavra. Essa luz deve conduzir as mentes confusas à Sua Palavra, a qual, se for comida e assimilada, é como o sangue que dá vida à alma. Então serão vistas boas obras como luz brilhando nas trevas.”
“Pouca atenção é dada a Bíblia, e o Senhor deu uma ‘luz menor’ [entenda-se como Espírito de Profecia] para guiar homens e mulheres à ‘luz maior’ [entenda-se como Escritura Sagrada — a Bíblia].” “Com relação à infalibilidade, nunca a pretendi; unicamente Deus é infalível. Sua Palavra é a Verdade, e não há nEle mudança ou sombra de variação.” Os pioneiros dos Adventistas do Sétimo Dia — Movimento de Reforma, na elaboração dos seus princípios de fé, durante sua primeira Conferência Geral em Gotha, de 14 a 20 de julho de 1925, expressaram sua crença na relação dos Testemunhos de Ellen G. White com a Bíblia nos seguintes termos: “Cremos que os Testemunhos do Espírito de Profecia não estão acima da Bíblia e nem formam um apêndice a ela, mas são conselhos de Deus, que nos introduzem às verdades da Palavra divina.” Portanto, apelo aos queridos leitores e nobres coobreiros na causa do Mestre a que nos unamos na defesa desse tão importante princípio que foi e sempre será o motivo de toda reforma genuína e duradoura —Sola Scriptura.
Revista Observador da Verdade, 2017